Museu Nacional: Incêndio foi um desastre anunciado?

Vista aérea do Museu Nacional do Brasil após o incêndio devastador de 02/09/2018 no Rio de Janeiro, Brasil. (Foto de Buda Mendes / Getty Images)

Incêndio pode ter sido causado por balão ou curto-circuito, diz ministro

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que o incêndio de grandes proporções que destruiu o Museu Nacional, na Zona Norte do Rio, na noite deste domingo, 2, é uma “tragédia incomensurável”. Ao Estado, ele afirmou que há duas possibilidades sobre as causas do incêndio em investigação: o fogo pode ter sido causado por um balão ou por um curto-circuito.

Sá Leitão lamentou em declaração à Rádio Eldorado:

“Parece que o fogo começou por cima, no alto, e foi descendo. O Museu Nacional já estava fechado (na hora do fogo), a brigada de incêndio não estava mais lá e havia apenas quatro vigias. Como o fogo começou em cima e na parte de trás, os vigias demoraram para perceber o incêndio. Quando perceberam, já não era mais possível que fizessem alguma coisa”.

O ministro afirmou ainda ser fundamental uma apuração rigorosa em relação às causas do incêndio. Segundo Leitão, parte do acervo que estava fora do Palácio foi preservada. Técnicos estão estimando o que foi possível recuperar.

Sá Leitão explicou:

“É preciso dizer que uma parte do Museu que fica no Horto como a botânica, biblioteca central que tem cerca de 500 mil volumes, parte da coleção de arqueologia e uma parte de coleção de vertebrados foram preservados”.

Incêndio no Museu Nacional provoca indignação por “tragédia anunciada”

Policiais usaram bombas de gás para afastar dezenas de pessoas que se reuniram no entorno do Museu Nacional nesta segunda-feira para demonstrar indignação e manifestar apoio à instituição, após um incêndio devastador da noite de domingo que atingiu o emblemático prédio na Zona Norte do

Imagens aéreas transmitidas ao vivo pela emissora GloboNews mostraram policiais lançando bombas de gás e usando cassetetes para afastar algumas dezenas de pessoas, incluindo pesquisadores, estudantes e funcionários, que tentavam entrar pelos portões do parque onde fica o museu.

Após alguns minutos de tensão, a polícia liberou o acesso à área externa do Museu Nacional, e dezenas de pessoas formaram um cordão humano no entorno do prédio histórico para dar um abraço simbólico no museu, mostraram imagens aéreas.

Pessoas protestam em frente ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro - 03/09/2018 (REUTERS/Pilar Olivares)

Depois do incêndio de domingo, a fachada amarela do Museu Nacional, que já serviu como Palácio Imperial, permanecia de pé na manhã desta segunda-feira, mas suas grandes janelas revelavam corredores queimados e vigas de madeira carbonizadas em um interior sem teto.

De vez em quando, bombeiros saíam do prédio com um vaso ou pintura que conseguiram resgatar entre os 20 milhões de itens que foram provavelmente destruídos após o incêndio de domingo, cuja causa ainda não foi determinada por autoridades.

O vice-diretor do museu, Luiz Duarte, disse à GloboNews que a instituição vinha sendo negligenciada por sucessivos governos federais, e que um financiamento ainda não liberado de 21,6 milhões de reais do BNDES anunciado em junho incluía, ironicamente, um plano para instalar equipamentos modernos de proteção contra incêndios.

O comandante do Corpo de Bombeiros do RJ, Roberto Robadey, disse a repórteres nesta segunda-feira que os dois hidrantes localizados do lado de fora do prédio estavam secos. Isso forçou bombeiros a utilizarem água de um lago próximo para abastecer os caminhões, mas as chamas consumiram o prédio rápido demais.

O comandante Robadey disse:

“Em um mundo ideal, nós teríamos muitas coisas que não temos aqui: sprinkler dentro da edificação.” 

Ele acrescentou ainda que o Corpo de Bombeiros irá avaliar sua resposta ao incêndio e tomar medidas se necessário:

“Ontem foi um dos dias mais tristes da minha carreira”.

Renato Rodriguez Cabral, professor de geologia e paleontologia do Museu Nacional, disse que o declínio do museu não aconteceu de um dia para o outro:

“Isso não é de hoje. É uma tragédia anunciada desde 1892 quando o museu veio para cá”, 

Cabral disse ainda, enquanto abraçava alunos e colegas de trabalho:

“Sucessivos governos republicanos nunca deram dinheiro, nunca investiram em infraestrutura”.

Cabral disse que o prédio recebeu novas fiações há 15 anos, mas que claramente não havia um plano suficiente para proteger o museu de um incêndio, acrescentando: 

“Os bombeiros praticamente assistiram ao incêndio”.

Ele disse ainda:

“Para a história e ciência brasileiras, isso é uma tragédia completa”.

E finalizou:

“Não tem como recuperar o que perdemos”.

Vista aérea do museu antes do sinistro.

Menos recursos

O museu, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ao Ministério da Educação, foi fundado em 1818. Seu acervo contava com diversas coleções importantes, incluindo artefatos egípcios e o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil.

De 2013 para cá os recursos destinados ao local caíram significativamente, embora tenham oscilado ano a ano, segundo levantamento da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.

De janeiro a agosto de 2018, foram pagos apenas 98.115 reais à instituição, sendo 46.235 reais via UFRJ, para funcionamento do museu, e outros 51.880 reais pelo Ministério da Cultura, para concessão de bolsas de estudo. No total, a cifra corresponde a 15 por cento da verba de 2017.

De acordo com o levantamento da Câmara, o total de recursos recebido pelo museu foi de 979.952 reais em 2013 e de 941.064 reais em 2014, com forte recuo em 2015, quando passou a 638.267 reais. Em 2016 houve alguma recuperação, para 841.167 reais, valor que novamente voltou a cair no ano passado, para 643.568 reais pagos.

Em 2017, após uma infestação de cupins que levou ao fechamento da sala de exposição de fósseis de dinossauros, o Museu Nacional recorreu a um site de financiamento coletivo para buscar recursos para reabrir a exibição, e arrecadou quase 60.000 reais, quase o dobro da meta.

A destruição do prédio, onde imperadores já viveram, foi uma perda “incalculável para o Brasil”, disse o presidente Michel Temer em publicação no Twitter. “Foram perdidos 200 anos de trabalho, pesquisa e conhecimento”.

O Palácio do Planalto disse em nota oficial que Temer se reuniu nesta manhã com entidades financeiras e empresas públicas e privadas, e que ficou definida a criação de uma rede de apoio econômico para viabilizar a reconstrução do Museu Nacional.

Risco de Incêndio do Museu Nacional foi denunciado há um mês atrás

A denúncia de risco de incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, foi feita no final Julho deste ano e protocolada no Ministério Público Federal pelo Advogado e Ativista Monarquista André Miranda. Um trecho da denuncia, evidencia claramente o perigo de incêndio, e diz o seguinte:

DA REQUISIÇÃO DA UFRJ

Atualmente, a UFRJ requisitou a área para que seja espaço de reserva estratégica, privativa da administração e vetada ao público em geral.

Ocorre que a UFRJ, que administra o Museu Nacional, não esta conseguindo sequer manter o prédio do Palácio Imperial da Quinta da Boa Vista, pois, conforme se vê nas fotos em anexo, os salões do palácio, cujo acesso é restrito ao público, contam com fios descobertos, extensões e fiações irregulares, gambiarras e tomadas externas irregulares, teto sem forro, entre outros problemas estruturais por que passa o Palácio Imperial de São Cristóvão, sede do Museu Nacional.

O descaso é completo com a história!

ISSO PODE, INCLUSIVE CAUSAR RISCO DE INCÊNDIO NO LOCAL, PRINCIPALMENTE NA ÁREA DO TERCEIRO ANDAR ONDE FICAM OS ESCRITÓRIOS.

Uma das poucas imagens recentes do museu, intacto, apesar da péssima administração
Triste imagem do sinistro, com o testemunho silencioso da estátua de Dom Pedro II, o Magnânimo e ao fundo o Museu Nacional, antiga residência oficial da família imperial, e guardião de inúmeras relíquias inestimáveis daquele período, vítima das chamas implacáveis.(Alexandre Brum/Agência O Dia/Estadão)

Além disso a denuncia feita ao MPF em Julho deste ano, sinaliza e prova que a ineficiência da administração da UFRJ na preservação do patrimônio histórico, é notória e patente. Segue abaixo o link da denuncia na íntegra feita pelo advogado André Miranda. 

(Inserir aqui o link do documento)

A sociedade brasileira, indignada com tamanha infâmia com seus principais resquícios históricos, se sente ultrajada por tamanho descaso da administração pública federal com suas instituições culturais e com o descuido com o acervo do patrimônio histórico e cultural brasileiro, e pede, com a máxima urgência e seriedade, a investigação e punição por todo e qualquer responsável, direto ou indireto pelo prejuízo irreparável provocado por tamanho sinistro.

Nós estaremos aqui, investigando, apurando e denunciando.

Fonte: Agência Reuters e Revista Exame

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